Os libertatis opressione e a Branca de Neve azeda de Pondé

Uma resposta ao texto publicado por Luis Felipe Pondé na Folha de São Paulo em 17/12/2012

O texto do renomado filósofo? é tão pobre de argumentos e carente de veracidade que por si só não mereceria uma resposta, mas tendo em vista que tão nobre escritor dedicou seu precioso tempo para falar do movimento feminista entre outros movimentos, sinto-me obrigada a retribuir tamanha gentileza e cortesia, embora não esteja a sua altura.

Mas não é a ele que me dirijo, pois claramente não se trata de equívocos, senão de opções políticas claramente definidas, tampouco aos seus leitores que vibram degustando ideias maceradas desprovidas de qualquer objetividade ou consonância com a realidade, e que talvez não tenham se dado conta que existe vida fora (principalmente) da Bolha. Mas sim  àqueles que mesmo sem ter lido o texto ao qual me refiro compartilham das ideias que tentarei esboçar nessas poucas linhas. Digo isso não porque quero me furtar ao diálogo, estejam a vontade a questionar, mas duvido que do alto de sua excelência acadêmica, vossa imponência se digne a ler um texto de uma reles mortal que possivelmente ele enquadre como oppression studie.

Aliás é curioso observar que sob a égide de uma pseudo liberdade de expressão esses que são os verdadeiros fascistas buscam proteção contra os argumentos de movimentos sociais que questionam o status quo estabelecido e que se recusam a aceitar as desigualdades construídas historicamente como dados naturais (ou quem sabe sobrenaturais como querem alguns)e imutáveis.

Utilizam, da liberdade de expressão de maneira arbitrária, quando de outra parte as pessoas se expressam contrários a suas ideias são chamados de fascistas, ou no seu neologismo intelectualóide: oppression studies.

Sinto-me licenciada poeticamente também para me referir a essas ideias ou movimento como Libetatis opressione, pois se dizem oprimidos por não poderem manifestar livremente seu machismo, racismo, homofobia, ou seja seu discurso de manutenção da opressão real sofrida cotidianamente por mulheres, homossexuais, negros e pobres.O que defendem em verdade é a liberdade de opressão. Seria risível não fosse a seriedade das questões tratadas por ele com tanta banalidade.

O movimento feminista, a despeito do que os arautos da Libetatis opressione querem anunciar, luta pela liberdade de todas as pessoas de fazerem suas escolhas.  E quando se defende, por exemplo, que uma pessoa tem o direito de se relacionar com outra do mesmo sexo não significa negar as relações heterossexuais, ou mesmo atacá-las. O fato é que as relações heterossexuais já gozam de liberdade, proteção jurídica e aceitação cultural, não necessitam, portanto, que movimentos sociais levantem bandeiras a seu favor.

Mas quando por outra parte pessoas sofrem violência física ou psicológica, ou mesmo quando têm suas vidas retiradas simplesmente por serem o que são, então é obvio que aqueles que verdadeiramente lutam pela liberdade ergam suas vozes e denunciem a sociedade que cria pessoas capazes de atrocidades pela simples incompreensão e intolerância do outro? A propósito, nosso nobre filósofo que além de tantas qualificações é também profundo conhecedor da psicologia freudiana poderia nos esclarecer essa necessidade humana de extinguir o outro para se afirmar, ao invés de elucubrações rasas a respeito da inveja do falo.

Falando ainda de psicologia todo mundo também sabe o quanto aprendemos pelo simbólico, e prova mais banal são as religiões, campo que também é de conhecimento do nobre filósofo. Muitos psicanalistas sérios, como o foi Carl Gustav Jung, se dedicaram a compreensão desse universo simbólico, sem esgotar no entanto, suas possibilidades de interpretação. Os contos infantis fazem parte desse universo e longe de serem isentos, são eficazes transmissores de ideias, ensinamentos, valores. Não obstante ao mundo idílico de suas histórias, possuem uma vinculação com os diferentes contextos espaciais e temporais desse mundo aqui, o das histórias reais, contribuindo com a perpetuação de estereótipos e papeis sociais que condicionam e limitam as potencialidades humanas.

É, portanto, a ressonância de tais ideias que são construídas e difundidas nesse nosso mundo que questionamos. A história da branca de neve não é só mais uma história inocente criada para estimular a fantasia das crianças. Assim como a maioria das histórias reelaboradas pelos Estúdios Disney, ela reforça papeis e identidades onde a mulher é vista como frágil a espera de um príncipe encantado que a salvará do perigo e lhe conduzirá a caminho da felicidade, enquanto sua madrasta que tem como única motivação a inveja de sua beleza será duramente castigada. O príncipe, por sua vez tem a obrigação de ser forte, corajoso e bonito, e é claro a missão de se salvar a princesa e lhe oferecer a felicidade eterna.

Ora não precisa ser nenhum expert em filosofia ou psicologia para perceber o quanto essas histórias têm de nocivas as mentes infantis quando são difundidas de forma massiva como padrões a serem seguidos e tendo a sua volta uma indústria altamente lucrativa que extrai desses padrões seus produtos de consumo.

A nossa intenção “ridícula” não é criar novos padrões, mas sim que tenhamos liberdade e condições de questioná-los, que tenhamos possibilidades de escolhas, que não sejamos crianças iludidas e adultos frustrados por não nos enquadrarmos as pré-definições; que mulheres e homens sejam felizes pelo que são e não porque se casaram com um príncipe ou uma princesa, que saibamos que a felicidade não está no outro.

 Isso não significa dizer que tenhamos que viver sozinhos ou mesmo que não  devemos nos importar com os outros, pelo contrário que tenhamos relações mais verdadeiras que não se baseiem em ilusões  ou falsas expectativas, que não nos sintamos obrigados a ser de uma maneira que a maioria acha correta, ainda que achemos que não seja essa a nossa maneira de ser.

Em uma coisa eu concordo com o dignus philosophus: não aceitamos que nos ditem o que  nós ou “nossos filhos devem assistir”, ler ou aprender. Mas a ditadura da mídia já está instaurada por meio dos monopólios (proibidos pela nossa Constituição diga-se de passagem); por meio de uma programação enlatada que mascara e deturpa a nossa realidade; por meio de veículos de comunicação que só expressam a opinião de uma determinada camada social.

Porque quando defendemos a nossa liberdade de não se meterem nas nossas vidas, nossas escolas e nossas famílias, quando nos recusamos a vivermos sob uma ditadura de padrões somos acusados de fascistas??? Não estamos falando da mesma liberdade??? Ou será que tal qual os porcos de George Orwell, na calada da noite modificaram a sua máxima para “todos são livres, mas alguns são mais livres que outros”?  Se for assim me desculpem, ainda não li o ultimo boletim de vossas senhorias.

Anúncios

Então somos nós as culpadas???

Image

Recentemente vi essa imagem na internet e me impressionou bastante. Muitas pessoas se manifestaram apoiando a frase que apontava atriz Carolina Dieckmann como “piranha”.

O ato de piranhagem a que se referem são fotos suas nua tiradas em sua privacidade em contexto que não nos dizem respeito em absoluto,  fotos essas furtadas  de seu computador por meio de pirataria na internet.

Tal fato nos leva a nos indagar novamente sobre a condição da mulher em nossa sociedade e a fragilidade em que está imbuída nossa privacidade.

Os apoiadores de tal imagem estão apoiando no fundo a idéia de que nossos corpos não nos pertencem, de que qualquer um pode usar e abusar deles, expô-los publicamente sem nosso consentimento. Uma violência simbólica extremamente nociva, que além de tudo legitima também a violência física e sexual, pois partem de um mesmo principio: o da mulher como propriedade social. É a sociedade quem determina o que pode e o que não pode ser feito com ela, e no caso de nossa sociedade extremamente machista pode-se tudo!

Vi muitas mulheres argumentarem que a atriz se expõe publicamente não tendo, portanto, direito a reclamar da exposição feita contra sua vontade, ou ainda: “quem mandou tirar fotos sensuais, sendo uma pessoa pública”. A sordidez de tal discurso é tamanha que coloca como criminosa uma pessoa que viu sua vida, privacidade, seu copo, invadidos!!! Enquanto que os responsáveis por tal perversidade, e o próprio ato perverso não são questionados.

É o mesmo argumento da mulher estuprada que estava de minissaia, portanto, “procurou”.  Postamos aqui o manifesto da “Marcha das Vadias” de Brasília, que desconstrói esse discurso perverso que aprisiona a sexualidade feminina dentro de estereótipos de santa e vadia, reprimindo a liberdade feminina ao mesmo tempo em que a transforma em produto.

Ok podemos até refletir sobre essa super exposição do corpo feminino nas mídias que contribuem para a perpetuação da idéia da mulher como objeto, e como as próprias mulheres acabam ajudando nessa perpetuação. Agora acusá-la de piranhagem por causa de suas fotos??? Temos realmente esse direito??? Quer dizer que qualquer mulher que se exponha publicamente é considerada piranha, vadia ou qualquer outro adjetivo do tipo???

A atriz e qualquer uma de nós pode sim vender a imagem de seu corpo se assim o desejar, pode aparecer nua ou semi nua em novelas, filmes, comerciais, pode inclusive lucrar com essa exposição. Qualquer mulher também pode lucrar vendendo prazer sexual. Mas ela precisa CONSENTIR, eis a palavra que faz toda a diferença.

Ninguém tem o direito de se apropriar do que é seu, só seu e de mais ninguém! E isso vale para todas as mulheres!

Podemos também refletir a respeito de que o fato só teve tamanha repercussão por se tratar de uma atriz e uma mulher economicamente favorecida, e que mulheres pobres são constantemente violentadas  simbólica, física ou sexualmente todos os dias sem que nada seja feito pela mídia, autoridades ou polícia.

 Mas isso não tira a gravidade dos fatos e o fato é que toda vez que atacam uma mulher com acusações desse tipo a ofensa é a todas nós, e não podemos nos calar diante de tal afronta!!!

Precisamos combater esses rótulos, pois eles limitam nossa capacidade humana (que é infinita) de nos desenvolver, criar, amar… viver.

Os pré-conceitos não podem nos definir, conter, aprisionar, somos muito mais que isso… transbordemos!!!