Por relações igualitárias

Quando um grupo como o nosso se propõe a discutir as questões de gênero, significa que as questões atravessadas por este conceito nos toca e tem relevância ímpar no nosso “projeto de sociedade”. Para ficar mais claro, conceito de gênero, diz respeito a construção da identidade social entre os gêneros feminino e masculino e a forma de relação social que se estabelece entre homens e mulheres. Talvez a definição que eu tenha colocado, seja ainda limitada e não dê conta de alcançar a complexidades das  relações e da infinidade de seres que podemos ser, mas por hora, esta é a definição no qual temos nos apoiado. Pois bem, se falamos também de relações igualitárias estamos em sintonia com os princípios da Declaração dos Direitos Humanos e com a nossa Constituição Cidadã que vão nos dizer: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. artigo I da DUDH e Capitulo 1 artigo 5º da Constituição de 1988.

O interesse em discutir as questões de gênero, parte de um incomodo e de querer saber como relações igualitárias se efetivam e acontecem na prática. Se por um lado temos estudos que avançam nas discussões de gênero, que vai nos ajudar a entender que relações são construídas, histórica, social e culturalmente e que podemos nos apoiar nos marcos legais para afirmar nossa luta, por outro lado, ainda nos deparamos com situações que cotidianamente violam os direitos das pessoas de se afirmarem e se manifestarem tais como são e querem ser! Oras, relações igualitárias não acontecem em uma sociedade em que orientação sexual é motivo de piada e agressões aleatórias, não acontecem quando as relações se estabelecem por meio da hierarquia dos gêneros, não acontecem quando sua identidade étnico/racial é ignorada e subjugada. Embora, saibamos que nossa sociedade se construiu com base na desigualdade e na exploração e que as relações se estabeleceram de maneira assimétrica, onde as desigualdades de classe acirram ainda mais a desigualdade de gênero, raça/etnia, sabemos também que colhemos avanços, graças aos movimento de mulheres e feministas, movimento LGBT, movimento negro que fizeram pressão para que “suas” questões e demandas não fossem relegadas ao âmbito privado, mas que se tornassem públicas, ou seja, “nossa”, de toda sociedade. Para se construir relações igualitárias é preciso olhar com desconfiança alguns princípios normativos que inviabilizam as ações e a efetivação de direitos principalmente para estes setores da população.

Desejar e discutir as questões desnudadas pelos estudos de gênero, significa enfrentar os conflitos e limites que os diversos temas presente nesta discussão podem trazer, tais como casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, aborto e o direito de escolha das mulheres, paternidade, maternidade, etc… Estas questões precisam ser encaradas como nossas, não d@s outr@s, de forma distante, mas como aquilo que esta perto, dentro de nós e que experimentamos todos os dias. Significa reconhecer que, embora tenhamos “ótimas intenções” e que que a maioria das pessoas se dizem favoráveis a construção de uma sociedade justa e igual em direito, elas (intenções) não são suficientes quando não reconhecemos que o lugar que ocupamos socialmente pode, se não estivermos atent@s a tais questões, servir de reprodução de inúmeros preconceitos que ameaçam e violam os direitos humanos, principalmente de mulheres, homossexuais, negras e jovens. Neste sentido, as discussões em torno das “relações igualitárias” feita por nós, se afirmam a partir do reconhecimento das diferenças e do enfrentamento também das questões aqui colocadas.

Keli de Oliveira