Os libertatis opressione e a Branca de Neve azeda de Pondé

Uma resposta ao texto publicado por Luis Felipe Pondé na Folha de São Paulo em 17/12/2012

O texto do renomado filósofo? é tão pobre de argumentos e carente de veracidade que por si só não mereceria uma resposta, mas tendo em vista que tão nobre escritor dedicou seu precioso tempo para falar do movimento feminista entre outros movimentos, sinto-me obrigada a retribuir tamanha gentileza e cortesia, embora não esteja a sua altura.

Mas não é a ele que me dirijo, pois claramente não se trata de equívocos, senão de opções políticas claramente definidas, tampouco aos seus leitores que vibram degustando ideias maceradas desprovidas de qualquer objetividade ou consonância com a realidade, e que talvez não tenham se dado conta que existe vida fora (principalmente) da Bolha. Mas sim  àqueles que mesmo sem ter lido o texto ao qual me refiro compartilham das ideias que tentarei esboçar nessas poucas linhas. Digo isso não porque quero me furtar ao diálogo, estejam a vontade a questionar, mas duvido que do alto de sua excelência acadêmica, vossa imponência se digne a ler um texto de uma reles mortal que possivelmente ele enquadre como oppression studie.

Aliás é curioso observar que sob a égide de uma pseudo liberdade de expressão esses que são os verdadeiros fascistas buscam proteção contra os argumentos de movimentos sociais que questionam o status quo estabelecido e que se recusam a aceitar as desigualdades construídas historicamente como dados naturais (ou quem sabe sobrenaturais como querem alguns)e imutáveis.

Utilizam, da liberdade de expressão de maneira arbitrária, quando de outra parte as pessoas se expressam contrários a suas ideias são chamados de fascistas, ou no seu neologismo intelectualóide: oppression studies.

Sinto-me licenciada poeticamente também para me referir a essas ideias ou movimento como Libetatis opressione, pois se dizem oprimidos por não poderem manifestar livremente seu machismo, racismo, homofobia, ou seja seu discurso de manutenção da opressão real sofrida cotidianamente por mulheres, homossexuais, negros e pobres.O que defendem em verdade é a liberdade de opressão. Seria risível não fosse a seriedade das questões tratadas por ele com tanta banalidade.

O movimento feminista, a despeito do que os arautos da Libetatis opressione querem anunciar, luta pela liberdade de todas as pessoas de fazerem suas escolhas.  E quando se defende, por exemplo, que uma pessoa tem o direito de se relacionar com outra do mesmo sexo não significa negar as relações heterossexuais, ou mesmo atacá-las. O fato é que as relações heterossexuais já gozam de liberdade, proteção jurídica e aceitação cultural, não necessitam, portanto, que movimentos sociais levantem bandeiras a seu favor.

Mas quando por outra parte pessoas sofrem violência física ou psicológica, ou mesmo quando têm suas vidas retiradas simplesmente por serem o que são, então é obvio que aqueles que verdadeiramente lutam pela liberdade ergam suas vozes e denunciem a sociedade que cria pessoas capazes de atrocidades pela simples incompreensão e intolerância do outro? A propósito, nosso nobre filósofo que além de tantas qualificações é também profundo conhecedor da psicologia freudiana poderia nos esclarecer essa necessidade humana de extinguir o outro para se afirmar, ao invés de elucubrações rasas a respeito da inveja do falo.

Falando ainda de psicologia todo mundo também sabe o quanto aprendemos pelo simbólico, e prova mais banal são as religiões, campo que também é de conhecimento do nobre filósofo. Muitos psicanalistas sérios, como o foi Carl Gustav Jung, se dedicaram a compreensão desse universo simbólico, sem esgotar no entanto, suas possibilidades de interpretação. Os contos infantis fazem parte desse universo e longe de serem isentos, são eficazes transmissores de ideias, ensinamentos, valores. Não obstante ao mundo idílico de suas histórias, possuem uma vinculação com os diferentes contextos espaciais e temporais desse mundo aqui, o das histórias reais, contribuindo com a perpetuação de estereótipos e papeis sociais que condicionam e limitam as potencialidades humanas.

É, portanto, a ressonância de tais ideias que são construídas e difundidas nesse nosso mundo que questionamos. A história da branca de neve não é só mais uma história inocente criada para estimular a fantasia das crianças. Assim como a maioria das histórias reelaboradas pelos Estúdios Disney, ela reforça papeis e identidades onde a mulher é vista como frágil a espera de um príncipe encantado que a salvará do perigo e lhe conduzirá a caminho da felicidade, enquanto sua madrasta que tem como única motivação a inveja de sua beleza será duramente castigada. O príncipe, por sua vez tem a obrigação de ser forte, corajoso e bonito, e é claro a missão de se salvar a princesa e lhe oferecer a felicidade eterna.

Ora não precisa ser nenhum expert em filosofia ou psicologia para perceber o quanto essas histórias têm de nocivas as mentes infantis quando são difundidas de forma massiva como padrões a serem seguidos e tendo a sua volta uma indústria altamente lucrativa que extrai desses padrões seus produtos de consumo.

A nossa intenção “ridícula” não é criar novos padrões, mas sim que tenhamos liberdade e condições de questioná-los, que tenhamos possibilidades de escolhas, que não sejamos crianças iludidas e adultos frustrados por não nos enquadrarmos as pré-definições; que mulheres e homens sejam felizes pelo que são e não porque se casaram com um príncipe ou uma princesa, que saibamos que a felicidade não está no outro.

 Isso não significa dizer que tenhamos que viver sozinhos ou mesmo que não  devemos nos importar com os outros, pelo contrário que tenhamos relações mais verdadeiras que não se baseiem em ilusões  ou falsas expectativas, que não nos sintamos obrigados a ser de uma maneira que a maioria acha correta, ainda que achemos que não seja essa a nossa maneira de ser.

Em uma coisa eu concordo com o dignus philosophus: não aceitamos que nos ditem o que  nós ou “nossos filhos devem assistir”, ler ou aprender. Mas a ditadura da mídia já está instaurada por meio dos monopólios (proibidos pela nossa Constituição diga-se de passagem); por meio de uma programação enlatada que mascara e deturpa a nossa realidade; por meio de veículos de comunicação que só expressam a opinião de uma determinada camada social.

Porque quando defendemos a nossa liberdade de não se meterem nas nossas vidas, nossas escolas e nossas famílias, quando nos recusamos a vivermos sob uma ditadura de padrões somos acusados de fascistas??? Não estamos falando da mesma liberdade??? Ou será que tal qual os porcos de George Orwell, na calada da noite modificaram a sua máxima para “todos são livres, mas alguns são mais livres que outros”?  Se for assim me desculpem, ainda não li o ultimo boletim de vossas senhorias.

Por onde anda o GERI ?

No último dia 16 de junho, o GERI marcou presença na Tarde de Formação – atividade realizada entre o Anchietanum, Instituto Paulista de Juventude , Centro de Capacitação da Juventude e  a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de São Paulo. Onde temos  “Uma oportunidade para reunir jovens que querem tratar de temas importantes para suas vidas de jovens e para seus grupos.”

Esta formação tinha como tema “Tecendo Relações” – Cultivar o Afeto.

Tecer Relações, entre as pessoas e entre os grupos, falar sobre Afetividade/Sexualidade não é uma coisa fácil. Aliás, Afetividade/Sexualidade, incorpora uma série de temas e discussões que muitas vezes são deixados de lado, para que a conversa fique apenas voltada para os nossos sentidos e afetos.

É necessária uma abordagem mais critica e profunda neste tema.

O GERI percebe a importância de que os jovens abordem temáticas que procurem discutir estas “teias de relações”, abordando temas que fazem parte da vida das juventudes, da sociedade e tem um grande peso nas nossas relações diárias. Por isso se propõe a trazer a discussão sobre relações de gênero, machismo, os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, homoafetividade, racismo, entre tantas outras situações que vivemos. Para tanto é preciso que todos estejam dispostos a encarar e realidade que vivenciam, falar sobre ela e se apropriar do espaço em que estão.

Considerando-se que a PJ, esta em uma Igreja, e que esta se apresenta por seus dogmas, hierarquia, possui um caráter machista e homofóbico, é fundamental que as juventudes abordem de forma critica o papel da Igreja e como ele reflete na vida de cada um e na vivencia dos grupos. “Será que nós jovens não nos apropriamos daquilo que a Igreja e a sociedade apresentam, e sem fazer nenhuma reflexão sobre isso, contribuímos para a reprodução de preconceitos e estereótipos?”

Representado por Valéria Marques Mendes e por Keli Oliveira Rodrigues o GERI trouxe reflexões para a necessidade de se procurar compreender os projetos que a Pastoral da Juventude se propõe a realizar, considerando as temáticas acima citadas, de forma que perpasse a realidade das juventudes e aquilo que aspira enquanto criaturas afetivas, tendo em vista que sexualidade permeia a afetividade e vice e versa. Assim, vale uma pergunta: “Como a PJ está tecendo relações? E que relações seriam estas?”

Entendemos que seja uma relação libertadora, que encontre nas criaturas a disposição de se entregar para o outro sem distinções nem pré-conceitos, para assim vivenciar uma autêntica civilização do amor.

Depois da apresentação, a turma foi divida em pequenos grupos para debater em oficinas. O GERI deu continuidade à abordagem do tema na Oficina de Gênero, trazendo uma discussão sobre os papeis sociais que são atribuídos a meninos e meninas desde pequenos. O grupo que estava presente tratou dos espaços destinados a cada um destes, como por exemplo, a cozinha e o jogo de futebol, e sobre a imposição de normas e condutas para o comportamento de cada um; a maneira como devem se sentar, se vestir e mesmo falar. Houve também uma discussão de como se dá a luta pela igualdade de participação e acesso, e de como muitas vezes é difícil trazer esses temas para discussão em grupo.

Para finalizar, houve a proposta de que cada um pudesse sair dali procurando manter um olhar questionador sobre as diversas coisas que nos são apresentadas todos os dias, de forma que procuremos sempre entender o porque das coisas, sem achar que é natural que a menina brinque de boneca e ganhe uma cozinha de brinquedo de presente, e que é natural que o menino brinque de bola e goste de futebol. – Porque nada disso é natural.

A Rio+20 e os direitos das mulheres

A Conferência Rio+20, idealizada e planejada para ser um fórum de promoção da sustentabilidade e da justiça social e econômica, deu um passo para trás em matéria de direitos das mulheres. O texto final, após longa negociação, teve suprimida a expressão “direitos reprodutivos”, o que, para o movimento de mulheres, representa um grave retrocesso.

O texto inicial estipulava o compromisso dos países com a igualdade no acesso à educação e aos serviços de saúde para as mulheres, tratando da questão da saúde e dos direitos reprodutivos, bem como do planejamento familiar.

No entanto, o processo de negociação teve atuação decisiva do Vaticano – observador na Conferência – e de Estados conservadores aliados, que atuaram para enxugar a redação final. Chile, Rússia, Honduras, Nicarágua, Egito, República Dominicana e Costa Rica alegaram que não reconhecem a expressão “direitos reprodutivos” – que seria contrária ao direito à vida, uma vez que está associada à descriminalização do aborto – ou que a expressão deveria ser seguida do qualitativo “de acordo com as leis nacionais”. Do outro lado, países como Nova Zelandia, Canadá, Austrália, México, Uruguas e Estados Unidos defenderam e reiteraram o compromisso com os direitos sexuais e reprodutivos.

A mudança textual vai na contramão de acordos internacionais firmados na década de 1990, que definiram diretrizes e ações voltadas para a saúde e os direitos femininos. As Conferências do Cairo (1994) e Pequim (1995) são marcos históricos no processo de luta pela promoção da igualdade de gênero. A autodeterminação sexual e reprodutiva sem discriminação, coerção e violência tornou-se, desde então, o paradigma a nortear os países-membros da Organização das Nações Unidas na elaboração de leis e políticas públicas.

Duas décadas transcorridas e o cenário permanece conflituoso. Após o término das negociações, organizações feministas reunidas no Território Global das Mulheres da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, emitiram nota criticando o texto final. Para o movimento de mulheres, é preciso denunciar a tentativa de retroceder em relação aos direitos firmados internacionalmente. As organizações criticaram o modelo econômico que gera desigualdades e mercantiliza os direitos humanos. Em passeata promovida por organizações feministas no Rio de Janeiro, cerca de cinco mil mulheres protestaram contra o que consideram um regime opressor que vitima as mulheres no que concerne à liberdade sexual, à autonomia reprodutiva e à violência machista.

Para Beatriz Galli, da ONG Ipas e que acompanhou as negociações como representante da sociedade civil, o governo brasileiro, negociador do texto final, teve uma atuação decepcionante. “Os direitos femininos não foram prioridade, infelizmente. O Brasil cedeu à pressão e desconsiderou a linguagem acordada no Cairo e em Pequim, o que representa um retrocesso perigoso. Isso não significa que as Conferências dos anos 1990 tenham perdido a validade. No entanto, um encontro que tem como objetivo buscar meios para o desenvolvimento sustentável não pode ignorar o acesso à saúde e aos direitos sexuais e reprodutivos – componentes centrais para a sustentabilidade”, avalia Beatriz Galli.

De acordo com ela, a Rio+20 seria uma oportunidade para se avançar sobre a situação das mulheres, que representam mais da metade da população mundial. “Após os avanços propostos pelas Conferências, a lógica seria a de ampliarmos e melhorarmos as condições de vida das mulheres. O que era um convite ao avanço, no entanto, tornou-se um retrocesso. Os direitos sexuais e reprodutivos restringiram-se ao papel de moeda de troca”, observa Beatriz Galli. O próprio chanceler brasileiro, ministro Antonio Patriota, se disse a favor da inclusão do termo no texto final, mas reconheceu que o tema suscita divisões profundas.

Para evitar um racha no G77 – bloco de países em desenvolvimento – e manter a unidade em outros temas considerados mais importantes pelos integrantes do bloco, o governo brasileiro cedeu na temática dos direitos femininos. “O Brasil perdeu uma ótima oportunidade de fortalecer a luta pelo desenvolvimento sustentável. Poderia ter tido uma ação mais decisiva e menos condescendente, mas novamente, como tem sido nos últimos meses, preferiu o silêncio. A justiça econômica e social tem como um dos pressupostos a igualdade de gênero e as prerrogativas sexuais e reprodutivas, compromissados há duas décadas e, lamentavelmente, esquecidos em 2012”, afirma Beatriz Galli.

Para Guacira Cesar, diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), o saldo da Rio+20, até o momento, é lamentável. “Retirar os direitos reprodutivos do escopo do texto é uma perda para as mulheres, pois desvirtua compromissos relativos à saúde das pessoas. Isso é uma questão de direitos humanos, que não deveria ficar à mercê das relações de força entre países. O que preocupa ainda mais é o precedente que isso abre, pois não sabemos como o tema será tratado nas próximas reuniões internacionais. Se cedemos na Rio+20, quem pode garantir que mais à frente o mesmo não ocorrerá?”, critica a diretora do Cfemea, concluindo que o papel desempenhado pelo Brasil não condiz com a proposta de um mundo sustentável e justo.

As manifestações das mulheres refletem um cenário composto pela atuação persistente de forças conservadoras, que tradicionalmente, há décadas, advogam contra os direitos femininos. Nas Conferências dos anos 1990, Estados conservadores e o Vaticano atuaram com o intuito de impedir a definição dos direitos sexuais e reprodutivos. Observador permanente na ONU, o Vaticano é um ator cuja agenda prioritária abarca o combate sistemático a tais direitos. Em 2011, durante votação do relator Anand Grover sobre saúde, a Santa Sé, sob o silêncio do governo brasileiro, fez pressão incisiva contra o texto, que considerava a criminalização do aborto uma violação dos direitos humanos.

Publicada em: 20/06/2012 em http://www.clam.org.br/destaque/conteudo.asp?cod=9618

Então somos nós as culpadas???

Image

Recentemente vi essa imagem na internet e me impressionou bastante. Muitas pessoas se manifestaram apoiando a frase que apontava atriz Carolina Dieckmann como “piranha”.

O ato de piranhagem a que se referem são fotos suas nua tiradas em sua privacidade em contexto que não nos dizem respeito em absoluto,  fotos essas furtadas  de seu computador por meio de pirataria na internet.

Tal fato nos leva a nos indagar novamente sobre a condição da mulher em nossa sociedade e a fragilidade em que está imbuída nossa privacidade.

Os apoiadores de tal imagem estão apoiando no fundo a idéia de que nossos corpos não nos pertencem, de que qualquer um pode usar e abusar deles, expô-los publicamente sem nosso consentimento. Uma violência simbólica extremamente nociva, que além de tudo legitima também a violência física e sexual, pois partem de um mesmo principio: o da mulher como propriedade social. É a sociedade quem determina o que pode e o que não pode ser feito com ela, e no caso de nossa sociedade extremamente machista pode-se tudo!

Vi muitas mulheres argumentarem que a atriz se expõe publicamente não tendo, portanto, direito a reclamar da exposição feita contra sua vontade, ou ainda: “quem mandou tirar fotos sensuais, sendo uma pessoa pública”. A sordidez de tal discurso é tamanha que coloca como criminosa uma pessoa que viu sua vida, privacidade, seu copo, invadidos!!! Enquanto que os responsáveis por tal perversidade, e o próprio ato perverso não são questionados.

É o mesmo argumento da mulher estuprada que estava de minissaia, portanto, “procurou”.  Postamos aqui o manifesto da “Marcha das Vadias” de Brasília, que desconstrói esse discurso perverso que aprisiona a sexualidade feminina dentro de estereótipos de santa e vadia, reprimindo a liberdade feminina ao mesmo tempo em que a transforma em produto.

Ok podemos até refletir sobre essa super exposição do corpo feminino nas mídias que contribuem para a perpetuação da idéia da mulher como objeto, e como as próprias mulheres acabam ajudando nessa perpetuação. Agora acusá-la de piranhagem por causa de suas fotos??? Temos realmente esse direito??? Quer dizer que qualquer mulher que se exponha publicamente é considerada piranha, vadia ou qualquer outro adjetivo do tipo???

A atriz e qualquer uma de nós pode sim vender a imagem de seu corpo se assim o desejar, pode aparecer nua ou semi nua em novelas, filmes, comerciais, pode inclusive lucrar com essa exposição. Qualquer mulher também pode lucrar vendendo prazer sexual. Mas ela precisa CONSENTIR, eis a palavra que faz toda a diferença.

Ninguém tem o direito de se apropriar do que é seu, só seu e de mais ninguém! E isso vale para todas as mulheres!

Podemos também refletir a respeito de que o fato só teve tamanha repercussão por se tratar de uma atriz e uma mulher economicamente favorecida, e que mulheres pobres são constantemente violentadas  simbólica, física ou sexualmente todos os dias sem que nada seja feito pela mídia, autoridades ou polícia.

 Mas isso não tira a gravidade dos fatos e o fato é que toda vez que atacam uma mulher com acusações desse tipo a ofensa é a todas nós, e não podemos nos calar diante de tal afronta!!!

Precisamos combater esses rótulos, pois eles limitam nossa capacidade humana (que é infinita) de nos desenvolver, criar, amar… viver.

Os pré-conceitos não podem nos definir, conter, aprisionar, somos muito mais que isso… transbordemos!!!

Por relações igualitárias

Quando um grupo como o nosso se propõe a discutir as questões de gênero, significa que as questões atravessadas por este conceito nos toca e tem relevância ímpar no nosso “projeto de sociedade”. Para ficar mais claro, conceito de gênero, diz respeito a construção da identidade social entre os gêneros feminino e masculino e a forma de relação social que se estabelece entre homens e mulheres. Talvez a definição que eu tenha colocado, seja ainda limitada e não dê conta de alcançar a complexidades das  relações e da infinidade de seres que podemos ser, mas por hora, esta é a definição no qual temos nos apoiado. Pois bem, se falamos também de relações igualitárias estamos em sintonia com os princípios da Declaração dos Direitos Humanos e com a nossa Constituição Cidadã que vão nos dizer: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. artigo I da DUDH e Capitulo 1 artigo 5º da Constituição de 1988.

O interesse em discutir as questões de gênero, parte de um incomodo e de querer saber como relações igualitárias se efetivam e acontecem na prática. Se por um lado temos estudos que avançam nas discussões de gênero, que vai nos ajudar a entender que relações são construídas, histórica, social e culturalmente e que podemos nos apoiar nos marcos legais para afirmar nossa luta, por outro lado, ainda nos deparamos com situações que cotidianamente violam os direitos das pessoas de se afirmarem e se manifestarem tais como são e querem ser! Oras, relações igualitárias não acontecem em uma sociedade em que orientação sexual é motivo de piada e agressões aleatórias, não acontecem quando as relações se estabelecem por meio da hierarquia dos gêneros, não acontecem quando sua identidade étnico/racial é ignorada e subjugada. Embora, saibamos que nossa sociedade se construiu com base na desigualdade e na exploração e que as relações se estabeleceram de maneira assimétrica, onde as desigualdades de classe acirram ainda mais a desigualdade de gênero, raça/etnia, sabemos também que colhemos avanços, graças aos movimento de mulheres e feministas, movimento LGBT, movimento negro que fizeram pressão para que “suas” questões e demandas não fossem relegadas ao âmbito privado, mas que se tornassem públicas, ou seja, “nossa”, de toda sociedade. Para se construir relações igualitárias é preciso olhar com desconfiança alguns princípios normativos que inviabilizam as ações e a efetivação de direitos principalmente para estes setores da população.

Desejar e discutir as questões desnudadas pelos estudos de gênero, significa enfrentar os conflitos e limites que os diversos temas presente nesta discussão podem trazer, tais como casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, aborto e o direito de escolha das mulheres, paternidade, maternidade, etc… Estas questões precisam ser encaradas como nossas, não d@s outr@s, de forma distante, mas como aquilo que esta perto, dentro de nós e que experimentamos todos os dias. Significa reconhecer que, embora tenhamos “ótimas intenções” e que que a maioria das pessoas se dizem favoráveis a construção de uma sociedade justa e igual em direito, elas (intenções) não são suficientes quando não reconhecemos que o lugar que ocupamos socialmente pode, se não estivermos atent@s a tais questões, servir de reprodução de inúmeros preconceitos que ameaçam e violam os direitos humanos, principalmente de mulheres, homossexuais, negras e jovens. Neste sentido, as discussões em torno das “relações igualitárias” feita por nós, se afirmam a partir do reconhecimento das diferenças e do enfrentamento também das questões aqui colocadas.

Keli de Oliveira

Na última segunda-feira 16/04/2012 os apresentadores do CQC perguntaram ao jogador, Neymar, se ele “pega” mulher feia e o mesmo respondeu “que de vez em quando precisa fazer uma caridade” Em uma sociedade na qual vivemos é muito comum, ouvirmos comentários como estes, mas isto não tira a gravidade que este comentário tem, muito menos tira as responsabilidades dos atores envolvidos em transmitir mensagens, sejam de humor ou não.

Há várias questões envolvidas em relação a este programa, mas a de principal relevância para o Geri encontra-se a reprodução da relação desigual de gênero posta em nossa sociedade, e a reprodução constante de que está relação é natural. A mídia é responsável por transmitir as pessoas às informações. É sabido sim que tod@s @s brasileir@s tem a capacidade de discernir e analisar sobre aquilo que vê, escuta e entende, porém e quando só temos uma maneira de passar a informação!?

No CQC, por exemplo, esqueceu-se de dizer que a estética é uma questão vinculada diretamente há um padrão de beleza já existente na sociedade, e que beleza é sim relativo, quando temos acesso a outras formas de beleza não só aquela que as mídias me dizem que é bonito, me expõe que é bonito e apresentável.

Esqueceu-se de colocar que quando o Neymar coloca que está sendo caridoso, está reafirmando um papel de homem já estabelecido, viril, que não recusa mulher, reforça ai ideia de que o dinheiro compra tudo, e neste caso compra uma mulher, seja qual for sua aparência, ora estamos todas expostas em bancas de jornal mesmo, estamos todas expostas em vitrines de danceterias, em outdoors?

Não se lembrou de dizer que esta ideologia também reforça a posição que as mulheres são colocadas e mostra que o machismo é sim de toda a sociedade não somente de homens, mas de mulheres também, que cresceram com a ideia de que pra ser feliz precisam ter um alguém ao seu lado, mais além este alguém tem que te achar bela conforme o padrão, consumindo o que me torna parte do padrão, exposto como uma propriedade de alguém.

Há que se entender que não pode ser comum de um programa de humor,nem de qualquer ser humano acreditar que existe um padrão para beleza, para homem nem tão pouco para a ideologia pois é assim que reforçam a posição feminina como subordinada a do homem, não se pode acreditar que o dinheiro nos coloque em posições de submissão, nem tão pouco que a igualdade seja uma questão de fama, e que está fama diga a outros meninos que é natural acreditar que eu enquanto mulher tenho um preço, ou posso ser analisada por um padrão posto.

Mayara Alves

http://entretenimento.r7.com/blogs/fabiola-reipert/2012/04/17/neymar-pega-mulher-feia-para-fazer-caridade/

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Anencefalia: o Direito de interromper uma tragédia (por CDD)

A questão da possibilidade de que as mulheres brasileiras possam interromper um processo gestacional em caso comprovado de anencefalia tem suscitado intenso debate na sociedade.

Muitos dos argumentos contrários à liberdade de decisão das mulheres no campo reprodutivo, embora se apresentem como oriundos de um campo laico, científico, são, na verdade, a expressão de uma doutrina e de uma moral religiosa.

Ainda que se reconheça a forte impregnação religiosa da cultura em nosso país, o Estado brasileiro é laico e as leis devem refletir essa laicidade. Não se pode impor a toda a sociedade, cada dia mais diversa em suas adesões religiosas, a agenda moral de uma religião, traduzindo-a em leis e políticas destinadas a todas as cidadãs e cidadãos. Seria um desrespeito à própria Constituição.

Atualmente, o que acontece no caso de gestação anencefálica é que aquelas que decidem manter a gravidez, mesmo sabendo que geram um natimorto, têm sua decisão respeitada.

Mas as mulheres que não desejam manter essa gestação tem seus direitos negados e são feridas em sua dignidade. Essa é uma situação antidemocrática e eticamente inaceitável.

Pesquisas de opinião tem mostrado que mesmo as pessoas católicas consideram que as mulheres devem ter o direito de escolher interromper a gestação nestes casos. E muitas pessoas pensam que a legislação brasileira vigente o permite, expressando um consenso ético na sociedade sobre a validade moral de uma tal legislação.

Há ainda uma questão de justiça social a ser considerada. Para mulheres pobres, negras em sua maioria, a legalidade do procedimento é condição de possibilidade da realização do abortamento sem que suas vidas sejam colocadas em risco.

Finalmente, as palavras de T.P., moradora do estado do Rio, são a mais eloqüente expressão de que permitir o abortamento nos casos comprovados de anencefalia, constitui-se em uma medida de compaixão – atitude tipicamente evangélica – em face do sofrimento que significa tal situação para as mulheres e para os homens e famílias que a vivem:

“O que eu quero dizer ao Supremo Tribunal Federal é que nunca, enquanto eu viver, vou esquecer do caixão com a filha que me obrigaram a enterrar. E o que eu quero respeitosamente pedir é que a ministra e os ministros pensem nisso quando forem decidir sobre o destino de todas as mulheres deste país que tiveram a infelicidade de ter dentro do útero um feto condenado à morte. Não escolhemos essa tragédia, mas gostaríamos de ter o direito de não prolongá-la”.

Maria José Rosado é socióloga, Coordenadora Geral de Católicas pelo Direito de Decidir – Brasil.

http://www.catolicas.org.br/noticias/conteudo.asp?cod=3395.

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/04/11/anencefalia-direito-de-interromper-uma-tragedia-439625.asp