Então somos nós as culpadas???

Image

Recentemente vi essa imagem na internet e me impressionou bastante. Muitas pessoas se manifestaram apoiando a frase que apontava atriz Carolina Dieckmann como “piranha”.

O ato de piranhagem a que se referem são fotos suas nua tiradas em sua privacidade em contexto que não nos dizem respeito em absoluto,  fotos essas furtadas  de seu computador por meio de pirataria na internet.

Tal fato nos leva a nos indagar novamente sobre a condição da mulher em nossa sociedade e a fragilidade em que está imbuída nossa privacidade.

Os apoiadores de tal imagem estão apoiando no fundo a idéia de que nossos corpos não nos pertencem, de que qualquer um pode usar e abusar deles, expô-los publicamente sem nosso consentimento. Uma violência simbólica extremamente nociva, que além de tudo legitima também a violência física e sexual, pois partem de um mesmo principio: o da mulher como propriedade social. É a sociedade quem determina o que pode e o que não pode ser feito com ela, e no caso de nossa sociedade extremamente machista pode-se tudo!

Vi muitas mulheres argumentarem que a atriz se expõe publicamente não tendo, portanto, direito a reclamar da exposição feita contra sua vontade, ou ainda: “quem mandou tirar fotos sensuais, sendo uma pessoa pública”. A sordidez de tal discurso é tamanha que coloca como criminosa uma pessoa que viu sua vida, privacidade, seu copo, invadidos!!! Enquanto que os responsáveis por tal perversidade, e o próprio ato perverso não são questionados.

É o mesmo argumento da mulher estuprada que estava de minissaia, portanto, “procurou”.  Postamos aqui o manifesto da “Marcha das Vadias” de Brasília, que desconstrói esse discurso perverso que aprisiona a sexualidade feminina dentro de estereótipos de santa e vadia, reprimindo a liberdade feminina ao mesmo tempo em que a transforma em produto.

Ok podemos até refletir sobre essa super exposição do corpo feminino nas mídias que contribuem para a perpetuação da idéia da mulher como objeto, e como as próprias mulheres acabam ajudando nessa perpetuação. Agora acusá-la de piranhagem por causa de suas fotos??? Temos realmente esse direito??? Quer dizer que qualquer mulher que se exponha publicamente é considerada piranha, vadia ou qualquer outro adjetivo do tipo???

A atriz e qualquer uma de nós pode sim vender a imagem de seu corpo se assim o desejar, pode aparecer nua ou semi nua em novelas, filmes, comerciais, pode inclusive lucrar com essa exposição. Qualquer mulher também pode lucrar vendendo prazer sexual. Mas ela precisa CONSENTIR, eis a palavra que faz toda a diferença.

Ninguém tem o direito de se apropriar do que é seu, só seu e de mais ninguém! E isso vale para todas as mulheres!

Podemos também refletir a respeito de que o fato só teve tamanha repercussão por se tratar de uma atriz e uma mulher economicamente favorecida, e que mulheres pobres são constantemente violentadas  simbólica, física ou sexualmente todos os dias sem que nada seja feito pela mídia, autoridades ou polícia.

 Mas isso não tira a gravidade dos fatos e o fato é que toda vez que atacam uma mulher com acusações desse tipo a ofensa é a todas nós, e não podemos nos calar diante de tal afronta!!!

Precisamos combater esses rótulos, pois eles limitam nossa capacidade humana (que é infinita) de nos desenvolver, criar, amar… viver.

Os pré-conceitos não podem nos definir, conter, aprisionar, somos muito mais que isso… transbordemos!!!

Anúncios

Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasilia

‎”Por que marchamos?

(…)
No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!”

Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília.

Na última segunda-feira 16/04/2012 os apresentadores do CQC perguntaram ao jogador, Neymar, se ele “pega” mulher feia e o mesmo respondeu “que de vez em quando precisa fazer uma caridade” Em uma sociedade na qual vivemos é muito comum, ouvirmos comentários como estes, mas isto não tira a gravidade que este comentário tem, muito menos tira as responsabilidades dos atores envolvidos em transmitir mensagens, sejam de humor ou não.

Há várias questões envolvidas em relação a este programa, mas a de principal relevância para o Geri encontra-se a reprodução da relação desigual de gênero posta em nossa sociedade, e a reprodução constante de que está relação é natural. A mídia é responsável por transmitir as pessoas às informações. É sabido sim que tod@s @s brasileir@s tem a capacidade de discernir e analisar sobre aquilo que vê, escuta e entende, porém e quando só temos uma maneira de passar a informação!?

No CQC, por exemplo, esqueceu-se de dizer que a estética é uma questão vinculada diretamente há um padrão de beleza já existente na sociedade, e que beleza é sim relativo, quando temos acesso a outras formas de beleza não só aquela que as mídias me dizem que é bonito, me expõe que é bonito e apresentável.

Esqueceu-se de colocar que quando o Neymar coloca que está sendo caridoso, está reafirmando um papel de homem já estabelecido, viril, que não recusa mulher, reforça ai ideia de que o dinheiro compra tudo, e neste caso compra uma mulher, seja qual for sua aparência, ora estamos todas expostas em bancas de jornal mesmo, estamos todas expostas em vitrines de danceterias, em outdoors?

Não se lembrou de dizer que esta ideologia também reforça a posição que as mulheres são colocadas e mostra que o machismo é sim de toda a sociedade não somente de homens, mas de mulheres também, que cresceram com a ideia de que pra ser feliz precisam ter um alguém ao seu lado, mais além este alguém tem que te achar bela conforme o padrão, consumindo o que me torna parte do padrão, exposto como uma propriedade de alguém.

Há que se entender que não pode ser comum de um programa de humor,nem de qualquer ser humano acreditar que existe um padrão para beleza, para homem nem tão pouco para a ideologia pois é assim que reforçam a posição feminina como subordinada a do homem, não se pode acreditar que o dinheiro nos coloque em posições de submissão, nem tão pouco que a igualdade seja uma questão de fama, e que está fama diga a outros meninos que é natural acreditar que eu enquanto mulher tenho um preço, ou posso ser analisada por um padrão posto.

Mayara Alves

http://entretenimento.r7.com/blogs/fabiola-reipert/2012/04/17/neymar-pega-mulher-feia-para-fazer-caridade/

Link